Piada pronta

Desculpem, eu não resisto.

Está na Folha de S. Paulo de hoje: a empreiteira responsável pelo viaduto que ruiu no Rodoanel de São Paulo se chama Carioca Engenharia.

Mais um capítulo folclórico para o grande livro das velhas rixas entre as gentes da Guanabara e de Piratininga.

O dia da humilhação suprema

Então chega o grande dia da humilhação suprema, de implorar aos burocratas a serviço do Grande País do Norte por uma autorização para poder gastar dólares no país deles. Dia esse que  precisou ser agendado 38 dias antes, mediante o pagamento de taxa simbólica de R$ 38,  e que começa já com uma fila na rua, formada por um funcionário que decide, depois de consultar uma leitora de código de barras, quem passa ou não pelo portão.

Vinte minutos depois, já na segunda fila, do lado de dentro do muro mas ainda fora dos domínios consulares, um arrastão de funcionários solícitos e gritalhões vistoria as seis páginas de formulários que todos os aplicantes devem trazer preenchidas, indicando onde devem completar informações que faltam, o que escrever em cada um dos enigmáticos quadros. Os gritalhões também zelam para que esteja lá, bem grampeado, o comprovante do recolhimento da taxa maior – essa nada simbólica, R$ 249 – que se tem de pagar para ganhar o direito de implorar pelo visto.

Mais 30 minutos se passam antes que você entre por uma porta blindada para ser aliviado dos seus eletrônicos, todos confiscados até a sua saída, e passe por um detector de metais que o libera para pegar a terceira fila do dia, a da senha. Senha esta que lhe dará o direito de pegar a quarta fila, 25 minutos depois, para o guichê da pré-entrevista, onde você chega em mais 20 minutos e ouve o atendente lhe dizer, gentilmente, que não pode usar óculos na foto, apesar de isso não estar escrito nas instruções daquele site onde você pagou R$ 38.

Você deve, então, pagar mais R$ 14 na lanchonte para tirar outra foto e voltar ao mesmo guichê para ganhar o direito de entrar na quinta fila do dia, onde espera bem 30 minutos antes que sua senha seja chamada para que você deixe para sempre seus dedinhos escaneados nos arquivos digitais do Grande País do Norte. Cumprido esse procedimento, você está liberado para aguardar na sexta fila do dia, a da entrevista propriamente dita.

E quando sua hora chega, 50 minutos depois, o Senhor do Visto, por trás de um vidro blindado e com a voz metalizada do sistema de som, pergunta sua profissão, o que deseja fazer no Grande País do Norte, e então lhe oferece uma chance única: você gostaria de ampliar a sua autorização de visita?

Se pagar mais R$ 102 no guichê ao lado, você poderá gastar seus dólares não só em passeios, mas também em pretensos negócios. E não precisará passar por toda essa humilhação de novo, caso lhe surja no futuro uma oportunidade de congresso ou evento profissional. Não, você não ganha de brinde facas guinzo nem meias vivarina, mas mesmo assim aceita a sugestão e encara a sétima fila do dia, para aliviar seu bolso na quantia exigida.

De volta à janela de vidro do Senhor do Visto, 15 minutos depois, você apresenta o comprovante do pagamento. Ele agradece, lhe entrega um papelzinho alaranjado e o orienta a procurar a oitava fila, onde você vai pagar mais R$ 19 reais – desde que resida na mesma cidade do Consulado – para que lhe devolvam o passaporte pelo correio.

Você não pode retirar o passaporte pessoalmente? Não, você é obrigado a pagar a taxa e torcer para que o Correio não perca o passaporte novo, que você acabou de fazer por R$ 156, só porque o antigo ia expirar dentro de seis meses e o Grande País do Norte se reserva o direito de não emitir vistos em documentos de viagem com validade inferior a esse prazo.

Mas e a autorização, está concedido? A voz metálica do Senhor do Visto soa ameaçadora: não pode lhe dar esse tipo de informação. Taxa do correio paga, você caminha cabisbaixo para o carro. E como passou três horas dentro do Consulado da Empáfia, morre com mais R$ 21 de estacionamento.

Quem é bom de matemática não precisará de esforço para saber que gastou R$ 599 para perder uma manhã de trabalho e voltar para casa sem a certeza de que será agraciado com tal visto.

Só uma minoria é feliz no trabalho


Eu sei, parece uma obviedade, mas não é de minha autoria. O título deste post está estampado no alto da página E3 da edição de hoje Ilustrada, o caderno de cultura da Folha de S. Paulo. E quem afirma é um filósofo suíço que escreveu um livro sobre o assunto. Vale ler a entrevista de Alain de Botton. Tem frases que eu gostaria de mostrar a muitos dos meus ex-patrões. Vamos a algumas:

1. “Dinheiro é uma forma de amor. Não adianta alguém dizer “gosto muito de você”. Apenas quando você ouve “ok, vou lhe pagar 1 milhão de libras” você sente que é realmente necessário. É difícil você compreender que é importante quando é mal pago, mesmo se disserem que você é ótimo.”

2. “O capitalismo moderno sugere que os seres humanos são apenas commodities, mercadorias que se pega e pelas quais se paga um preço.”

A capa do livro de Alain de Botton

A capa do livro de Alain de Botton

3. “Existem pessoas que são felizes no emprego, mas são uma minoria. Não há razão, em tese, para que você seja infeliz no trabalho, mas há várias, na prática, para que a vida no escritório seja difícil. Se o cara que senta ao seu lado é um idiota, você vai odiar o trabalho, por melhor que ele seja.”

4. “É impossível passar pela vida profissional sem pelo menos uma série de insatisfações, questionamentos e crises.”

Para quem se interessou, o livro se chama “Os prazeres e desprazeres do trabalho”, 328 páginas. Lançamento da Rocco, vai custar R$ 42,50.

Cores de São Paulo

Quando faz sol, até que é bonito…
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Pra quem acha que já viajou demais…

Não custa nada dar uma olhada no vídeo deste cidadão. O alemão Christoph Rehage passou um ano atravessando a China a pé. O vídeo – que me foi sugerido pela querida Jaque – ficou bem bacana.

É isso aí galera, pé na estrada.

Haja heroísmo!

Sempre admirei os bombeiros, bravos soldados, personificação da coragem. Em criança, até queria ser um deles. Eis que esta manhã, depois de mais um vendaval na paulicéia, deparei com o sargento do fogo a relatar, pelo rádo, o ato de bravura de que tomara parte na madrugada:

 – Subimos ao segundo andar, onde havia outra vítima, uma mulher. A árvore havia caído sobre ela. Empreendemos todos os esforços nescessários para o resgate, mas foi não possível. Ela entrou em óbito.

 Será que ele quis dizer que ela morreu? Arre égua!* Desse jeito, não tem heroísmo que resista.

 * Interjeição arcaica, muito utilizada na região Nordeste do Brasil antes do Are Baba!, recentemente introduzido pelos meios eletrônicos do canal do plim-plim. Tchalô.

Chove muito na Casa da Garoa

Chuva de pedra de gelo, no meio da madrugada; de relâmpago e trovada, no meio dia. Com as nuvens pretas a assombrar a varanda escancarada para essa cidade estranha em que nasci. E o vento força sua entrada, urrando pelas frestras da janelas que estão sempre fechadas. Precisam estar.

Cristo Rei: a saudade estampada na parede

Cristo Rei: a saudade estampada na parede

Na sala o adesivo recém-colado não esconde as saudades da primeira casa, a da Lagoa, de dias ensolarados e partidas de vôlei em Ipanema, de compras de bicicleta na Cobal de Humaitá, de leitura de O Globo no 110 Rodoviária-Leblon.

O tempo parado na preguiça dos ponteiros

O tempo parado na preguiça dos ponteiros

Na parede o relógio sempre parado, não importa com quantas baterias o alimente, tenta fingir que o tempo não passa nesta cozinha onde ainda tempero as saudades de banquetes da segunda casa, a de Luanda, do meu mestre das panelas, do meu irmão de violão em cantorias animadas pela noite dentro.

Tempos felizes em que continuo a viver, parado como os ponteiros da cozinha, abandonado pelas palavras que deixaram esta Casa muda por longos dois meses.

Ferdizinho, olhar sempre perdido nas asas da janela.

Ferdizinho, olhar sempre perdido nas asas da janela.

No Rio, eu era paulista demais. Em Angola, eu era brasileiro demais. De volta a São Paulo, ainda não sei quem sou.